No município mais indígena do Brasil, uma crise expõe tensões entre discurso institucional e prática acadêmica na Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
Dessa fora, em São Gabriel da Cachoeira, no alto rio Negro, região que abriga ao menos 24 etnias, organizações indígenas, estudantes, gestores públicos e a própria Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) se mobilizam contra o edital de contratação de professores para o campus local.
No centro da controvérsia está o Edital nº 07/2026, que rege o concurso para o Instituto Intercultural de Educação, Saúde e Território do Rio Negro. A principal acusação: o documento excluiria, na prática, mestres indígenas formados pela própria universidade de disputar vagas de ampla concorrência.
Exclusão de indígenas da “ampla concorrência”
A contestação formal foi apresentada pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), com apoio de diversas instituições locais e nacionais. Em e-mail encaminhado à Ufam, a entidade protocolou uma impugnação parcial ao edital, articulada com órgãos como Funai, Seduc e Câmara de Vereadores .
O ponto central da crítica é a não inclusão do título de mestre pelo Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA) como habilitação válida para diversas vagas.
Segundo a Funai, a medida pode gerar “riscos concretos de restrição ao acesso de candidatos indígenas”, uma vez que o programa é uma das principais portas de entrada de indígenas da região à pós-graduação .
A fundação também questiona o modelo do edital, que impede, na prática, que candidatos indígenas concorram simultaneamente às vagas reservadas e às de ampla concorrência, o que pode configurar uma distorção do próprio conceito de “ampla” .
Formação indígena desconsiderada
Criado com perfil interdisciplinar, o PPGSCA formou, apenas em 2025, cerca de 30 mestres indígenas em São Gabriel da Cachoeira, com novas turmas em andamento e previstas. Ainda assim, segundo a impugnação, o edital adota critérios que não reconhecem plenamente essa formação.
O documento argumenta que há “incoerência normativa” ao aceitar o título em algumas áreas e excluí-lo em outras igualmente compatíveis, sem justificativa técnico-científica .
Além disso, destaca que a própria universidade investiu na formação desses pesquisadores indígenas e agora limita o alcance do título no momento de acesso à carreira docente — o que, segundo o colegiado de estudantes indígenas, fere o princípio da confiança legítima .
Apoio institucional e político
A mobilização ganhou respaldo amplo na região. A Coordenadoria Regional da Seduc em São Gabriel classificou a exclusão como “movimento excludente e restritivo” e pediu revisão do edital para garantir participação indígena nas vagas .
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